BAILE Comédia jocosa, quase prosa de um ato
Bruna Nehring 13 de Abril de 2009
O Cenário: A Casa das Rosas, gentilmente cedida para a ocasião pela Secretaria de Cultura
Personagens:
-AGÁCE - Mestre de Cerimônias
-KAREN - Coreógrafa
-ANFITRIÕES E SERES IMAGINÁRIOS CONVIDADOS
-UMA INTRUSA
AO ACENDEREM-SE AS LUZES: Agáce, o Mestre de Cerimônias, fraque completo, costas para os poucos degraus da entrada secundária, mão esquerda sobre o bronze da imponente balaustrada da escadaria, mão direita segurando uma folha de papel. Sua testa franzida denota preocupação em vista da dificuldade da tarefa. Pela lista, cada nome exercerá o direito de ser Anfitrião de um Convidado pessoal e especial, provavelmente invisível. As pessoas começam a avançar em direção a Agáce. Ele repete em voz alta o nome de cada um que se apresenta. O primeiro é o músico Júlio, Anfitrião de Homus Melodius que dirigirá a orquestra já instalada no saguão do primeiro andar. Seguem-se a poetisa Guilhermina, o poeta Luiz, o professor Benedito, e assim por diante, todos de mãos abanando, mas conversando ao seu lado com alguém que o Mestre de Cerimônias não pode ver. À chegada da Sra.Concha, verdadeira dama de gestos delicados e mãos descritivas, Agáce não percebe que, furtivamente, ela esconde, atrás de seu amplo vestido, um anjo maltrapilho de olhos tristes. É a SemHora do Carmo que, de propósito, o distrai mostrando com estardalhaço sua Dama Rosada, bibelô de rara beleza, para que Agáce a observe claramente: "a mansão deve ter obras de grande valor, mas esta é minha e estou chegando com ela”.
O cineasta Pedro, que entraria com um animal, chega sozinho como os outros; é devidamente inquirido, mas esclarece que a pequena Zibelina aparecerá só, quando e se seu Anfitrião a necessitará. Isto posto tudo parece correr muito bem até o momento em que a última Anfitriã da lista aparece, não com um, mais dois Convidados, e os dois de carne e osso. Um grandalhão em uniforme de gala da marinha e o outro, quase insignificante, num smoking Lagerfeld, de arrasar. Sem saber direito o que fazer, Agáce curva-se à única normalidade da noite e, encerrando sua tarefa, enfia a lista no bolso.
A orquestra já toca valsas, fox e tangos. Entre uma dança e outra, os Anfitriões e seus Convidados invadem a sala à direita do saguão inferior, onde grandes mesas, sob a supervisão de Sandra, oferecem a mais sensacional gororoba cujo fantástico poder transforma ingredientes, sabores, e aromas, segundo o paladar de cada conviva. Como surpresa desagradável: o preço exorbitante do champanhe, única bebida disponível. Pânico geral: despacha-se rapidissimamente o Akilah da Selda para tentar achar outras opções nas redondezas, sem sucesso, e é só a pronta intervenção do poeta Luiz, que soluciona o problema colocando a disposição de todas as senhoras, seu Convidado Brad que começa, com seu charmosíssimo sorriso internacional, a distribuição das taças, pagando do próprio bolso.
Aqui e acolá formam-se pequenos grupos animados, apresentando-se alguns, escondendo-se outros. Ós, Amiox e Krakosh fazem logo amizade, trocando seus segredinhos - e de seus anfitriões- entre si. Outros românticos namoram nos grandes terraços: mérito da poetisa Selda que, por intermédio de seus influentes amigos da Casa, conseguiu que o palacete fosse feericamente iluminado só por dentro, mantendo jardins e redondezas – inclusive a própria Avenida Paulista - às escuras, o que permite a visão clara e completa da lua e do firmamento quase ao alcance das mãos. No saguão inferior, o Sentirilho do Benedito está tentando entabular uma conversa com o CavalheirodasNuvens da Miriam, quando a Dama Rosada da DoCarmo avista o corpaço do Sven, um dos seres palpáveis da Bruna, precipitando-se ao seu encontro e querendo introduzir-se entre os botões dourados do uniforme e o calor da camiseta já suada. Ele agarra-a e a mantem quieta na sua enorme mão esquerda enquanto comenta com sua Anfitriã:
---“Não sei o que ela quer comigo, ela é tão frágil quanto atrevida. Já me perseguiu até no banheiro cor de rosa. O que é que eu faço?”
Ronaldo, o segundo convidado da Bruna, intervem rápido pegando o bibelô e, colocando-o diplomaticamente no bolso do smoking, sai vagando entre os demais, com ar de alienada indiferença.
Foi nesse exato momento que uma personagem desconhecida aparece no jardim e começa a subir a escadaria para entrar na festa. Agáce precipita-se ao seu encontro:
---“A Senhora tem convite?”
---“Não, mas vou entrar assim mesmo”
Seu tom alto e arrogante , cala a orquestra e o burburinho da festa. As pessoas começam a se perguntar: “quem é, quem será?” A poetisa Guilhermina despacha de imediato seu “Enigma”, para desvendar o caso, sem resultado. A desconhecida tenta passar pela direita do Mestre de Cerimônias que acompanha seu passo impedindo-a; ela tenta à esquerda, mas Agáce, firme, acompanha as tentativas sem abrir brechas.
Julio percebe a necessidade de ação, precipita-se escada acima para a orquestra e, numa improvisa retomada musical, levanta a batuta substituindo o seu Homus Melodius, que, pelo susto, está sendo acometido de tosse e gaguice.
Convidados e Anfitriões parados, estarrecidos, examinam a desconhecida. Karen, a coreógrafa do baile, acorre querendo intervir, sem sucesso. A voz da intrusa aumenta gritando:
---“Eu sou parte da Casa das Rosas, trouxe seres imaginários nessas salas de aula como convidada, todos tentaram imaginar o que significavam meus personagens, qual seria minha metáfora; fui tão aplaudida e meus queridos cavalheiros tão comentados, que ainda estão entre estes muros.....”
---“Ehi, ehi, Cuidado minha senhora, o único cavalheiro aqui é o meu Cavalheirodasnuvens!” brada a Miriam precipitando-se escada abaixo, mas a outra continua sem prestar-lhe atenção.
---”Os meus queridos cavalheiros estão sim aqui entres estes muros. Com eles eu preteri dois autores de fama internacional, e eu teria sido unanimidade, não fosse por causa de uma velha gringa, nariguda e metida a besta que estraçalhou com o meu estilo. Estou aqui para enfrentá-la.”
Bruna, desaparecendo atrás das enormes costas de Sven sussurra-lhe algo; ele num relâmpago entende a situação e, girando sobre si mesmo, empurra a amiga entre a parede e as costas da mulher esculpida perto da porta secundária do saguão; vendo que ela não é grande o suficiente para escondê-la, deita-se em cima das duas assumindo posição de bêbado feliz.
---“Onde está ela?” volta a berrar a desconhecida.
Agáce, sempre alerta, indica a escada do segundo piso, para que ela passe longe do esconderijo. Sven, aproveitando a trégua, e tentando mover os lábios o mínimo possível, bisbilhota: “ quem é aquela louca?”
E sua Anfitriã, quase sufocada por tamanho peso:
--- “Nada !! é uma émula de Margareth Mitchel! Um dia desse vai soltar um romance com personagens tipo ”Scarlet O'Hara e Rett Butler,” só que em alguma fazenda do Rio Grande do Sul na guerra dos Farrapos, no lugar de Tara na guerra de Secessão!” ---“E esta mulher aqui ao lado?”
---”Bah!! Paolina Borghese ou Madame de Maintenon, quem sabe...”
Passos em ritmo lento descem a escadaria. A intrusa encaminha-se desolada para a saída, sua voz alquebrada pela decepção.
---”Não achei: ela não está.”
Karen, atrás da vidraça quadriculada da biblioteca, respira aliviada. Anfitriões e Convidados voltam à dança – gafieira, samba de breque rasgado, evoluindo em franco grito de carnaval – enquanto a desconhecida, sem pisar no jardim, senta-se no último degrau, testa sobre os joelhos, mãos nos cabelos desarrumados. Imóvel e num momento de vago realismo confesso, pondera que:
---“....afinal! unanimidade menos um, não é pra qualquer um...”
Ao levantar-se para finalmente sair pelos canteiros floridos, ela suspira dramaticamente, mas em voz alta já tranquila: “Amanhã é outro dia!”
APAGAM-SE AS LUZES DA CASA DAS ROSAS
ACENDEM-SE AS DO JARDIM E DA AVENIDA PAULISTA
NOTA: Os Anfitriões que considerarem ofensivo ou inadequado o tratamento dado a seus Convidados estão autorizadosa processar o autor.
Mensagem de Jurema em 21/08/2026
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